Na nossa seção “Um dia na vida de…”, chegou a vez de Cecilia Celeste Danesi, pesquisadora no Instituto de Estudos Europeus e Direitos Humanos (UPSA) da Universidade Pontifícia de Salamanca e professora da Faculdade de Direito da Universidade de Buenos Aires. Ela também é coordenadora do Laboratório de Inovação e Inteligência Artificial (IALAB) da Faculdade de Direito da Universidade de Buenos Aires.
Sua busca por conhecimento a levou à Europa, onde completou seu doutorado e redigiu “O império dos algoritmos”, um livro que explora o impacto da IA na sociedade, especialmente em questões de gênero e Direitos Humanos.
Hoje compartilhamos suas respostas em uma nova edição de “Um dia na vida de…”.
Depende um pouco de onde estou, porque tenho que reconhecer que não tenho uma vida muito rotineira, viajo muito a trabalho, então depende se estou na universidade ou em viagem.
Vamos supor que seja um dia normal em que estou na universidade. Eu acordo, tomo café da manhã, chego à universidade e a primeira coisa que faço é responder e-mails. Às vezes, tenho reuniões com a equipe, geralmente nos primeiros dias da semana, para organizar, por exemplo, o conteúdo para redes sociais ou discutir projetos abertos nos quais estamos trabalhando.
Outra coisa que faço no dia a dia é me manter informada e atualizada. Como trabalho em áreas como tecnologia, inovação e inteligência artificial, a necessidade de atualização é constante, quase segundo a segundo. Isso me obriga a começar todos os dias fazendo uma espécie de backup do que está acontecendo.
Para mim, a comunicação desempenha um papel muito importante. Embora eu seja acadêmica, sustento que a importância, ou seja, o sentido do que fazemos como acadêmicos na universidade é que esses artigos ou pesquisas científicas cheguem à comunidade, ou seja, que sejam divulgados e possamos transmiti-los.
Então, para mim, a comunicação é muito importante no sentido de conseguir em linguagem clara e acessível, transmitir, traduzir e compartilhar as pesquisas e todo o trabalho que fazemos do lado acadêmico.
E olha, um conselho, eu que venho do campo do direito, trabalhei 14 anos no Poder Judiciário da nação, e lá se fala muito complexo, às vezes até eu tinha dificuldade de entender o que dizíamos ou em que sentido. Existe uma crença errada de que quanto mais difícil e complexo você fala, parece que você sabe mais ou que seu conteúdo é mais elevado, e eu acho que não é assim. Então, bom, foi um exercício que fiz porque tive que mudar do que me ensinaram para o que hoje acredito, que é que o conhecimento é colaborativo, que o conhecimento é construído de diferentes disciplinas, de diferentes visões. Então, para isso, a comunicação é chave.
Enorme, mas não só no setor jurídico. A inteligência artificial chegou para mudar radicalmente nossa vida, o que fazemos, até o que não fazemos e não somos conscientes. Isso nos gera uma mudança de paradigma na maneira como desenvolvemos as tarefas mais cotidianas e isso se replica em tudo. O setor jurídico está incluído de muitos aspectos, então acredito que o impacto é enorme.
Bom, vamos ver, desde minha época, quando eu tinha 18 anos, que entrei para trabalhar no poder judiciário, obviamente já usávamos um computador e um sistema, mas sempre foi um sistema bastante arcaico. Acho que o poder judiciário não se caracteriza ou não se caracterizou pela inovação e tecnologia. Acho que isso é uma dívida pendente que existe.
Então, acho que justamente foi essa falta de tecnologia e inovação que me levou a me especializar em inteligência artificial e começar a encontrar maneiras de melhorar, junto com a tecnologia, a prestação do serviço de justiça, que era o que fazia na época.
Bom, olha, a maior lição e da qual continuo aprendendo, é a frustração. Ou seja, o que eu aprendo a partir da frustração e vou te dar um exemplo. Geralmente compartilhamos, ou talvez os outros vejam, os sucessos que temos, mas não veem todo o caminho de frustrações, de rejeições ou de coisas que não saem como imaginávamos.
Então, não sei, por exemplo, eu obtive muitas bolsas, mas isso não se compara à quantidade de bolsas para as quais apliquei. Candidatei-me a muitíssimas e fui rejeitada muitíssimas vezes. Então, essa frustração é como tentar novamente, levantar-se e seguir em frente. Acho que é o “persevere e triunfará”, não? É um lema muito importante que temos que seguir.
E outra coisa é a perseverança porque quando fecham portas para nós, quando nos frustramos, às vezes dá vontade de jogar a toalha. Vou te dizer uma frase que não sei se é muito acadêmica ou correta para uma entrevista, mas bom, se diz que “quem não chora não mama”. E para mim, essa frase é perfeita, porque temos que seguir em frente, reclamar, estar presentes… Muitas vezes eu me apresentei a concursos, convocações de prêmios, de ensaios, de consultoria, do que seja e na primeira não ganhava, na segunda não ganhava e na terceira ganhava. Então isso de seguir tentando acho que é bom.
Não sei se estranho, mas um denominador comum que me aconteceu ao longo desses anos foi que há muita gente que se dedica a desqualificar o que os outros fazem. Então, sempre conto a anedota de quando comecei a me especializar em inteligência artificial há como 10 anos, me diziam “ai, isso nunca vai chegar aos nossos países”, “você está estudando um tema que é super teórico e não tem aplicação prática” ou “não faz muito sentido falar disso”.
E se alguém faz eco e toma todos esses comentários, teria que deixar de lado e guiar-se porque são os mais ouvidos. Então, é um pouco do que dizíamos na pergunta anterior, não? O seguir tentando e seguir em frente e como que de última te vai mal por uma decisão que você tomou e não por algo que te disseram os demais. Portanto, te diria isso, não sei se é o mais estranho, mas receber comentários não muito encorajadores para o que alguém está empreendendo.
O primeiro é a aceitação, porque pode causar graça, mas ainda escuto docentes, de qualquer idade ou nível educativo, dizer “não me venha falar de inteligência artificial porque isso não me interessa e eu não penso estudá-la”. Claro, mas você está condenando seus estudantes a que não se informem, a que não aprendam, a que não usem essa ferramenta de maneira correta, porque os jovens são os que mais utilizam e mais sabem usar a inteligência artificial.
Então, nós temos um dever como educadores de acompanhá-los nesse processo e de ensinar-lhes os riscos que essa ferramenta também tem, que façam um uso consciente dessa ferramenta. O fato de dizer, “não, eu me resisto à inteligência artificial”, prejudica enormemente os estudantes. Então, acho que o primeiro é aceitar e depois informar-se e estudar.
Acho que os docentes temos o dever de estudar de maneira permanente. Nós temos que ser os primeiros estudantes, porque essa é a maneira que temos de nos assegurar de que podemos transmitir o conhecimento da maneira mais atual e o mais verificado possível. E mais ainda nas sociedades modernas, onde há uma quantidade de fluxo de informação e de dados e de tudo, que tem que estar checada, que tem que estar revisada. De modo que, acho que os educadores em geral, não só do Direito, têm que um, aceitar o novo paradigma e dois, se envolver, entrar nesse novo paradigma.
Primeiro, há ferramentas que já estão em funcionamento, como por exemplo blockchain, como contratos inteligentes ou IA em busca de buscadores inteligentes para buscar jurisprudência ou para traçar a estratégia de um julgamento, analisar contratos, fazer sugestões de escritos, de contratos, etc. Acho que já estamos na era da IA generativa, onde nós podemos com chatGPT ou com outros modelos, começar a criar ou obter vantagens da tecnologia. Eu escuto profissionais de qualquer disciplina que vêm e me dizem que se lhes ocorreu usar chatGPT para tal coisa, que a mim nunca me ocorreu. Cada um pode ir criando seu universo laboral cocriado ou complementado com as bondades que tem a inteligência artificial.
Um pouco desse sentimento de frustração ou de substituição vamos sentir. À parte de inteligência artificial, por exemplo, sentimos quando nos mudam uma tarefa no nosso trabalho e a atribuem a outra pessoa porque a faz melhor essa pessoa ou ascendem a outro. Sempre que nos acontecem essas situações alguém se sente frustrado ou mal, gera raiva, inveja ou o que seja. Então eu digo que esse sentimento tem que assimilar, tem que aceitar e é normal que nos aconteça. Imagino os tradutores, que é uma das disciplinas mais afetadas pela inteligência artificial, logicamente vão sentir medo ou preocupação pelos seus postos de trabalho porque isso é inevitável e isso já está acontecendo.
O tema é como gerenciamos esse sentimento e o que podemos fazer. Então, aqui é onde eu digo, bom, aliemo-nos com a tecnologia. Ou seja, mesmo que eu anule a inteligência artificial da minha vida, as pessoas vão continuar utilizando e vai estar acontecendo.
Como posso eu me aliar com essa tecnologia para melhorar minha produtividade, minha criatividade e meu desempenho laboral? O primeiro é novamente o aceitar isso que está acontecendo, que é uma realidade e que por mais que não queiramos falar dela, está, existe. O segundo, capacitarmo-nos para podermos aproveitar-nos disso. Sempre digo que, no futuro, os profissionais mais bem-sucedidos vão ser aqueles que saibam e aprendam a complementar-se com a tecnologia. Por quê? Porque esses vão ser mais rápidos, mais eficientes, vão poder produzir mais e melhor. Então, é muito importante ter esse conhecimento da tecnologia para nos potencializarmos.
Justamente o livro convida-nos primeiro a criar consciência e conhecimento sobre esses vieses em inteligência artificial e, finalmente, no último capítulo, oferece chaves sobre como podemos ter uma inteligência artificial mais diversa e mais ética. Existem diferentes aspectos a considerar.
Acredito que um deles, e muito importante, é a formação nestas temáticas. Ser conscientes de que a tecnologia tem vieses, que esses vieses podem ter consequências enormes na sociedade. Temos que trabalhar nisso para que isso não continue acontecendo. Portanto, a capacitação, a leitura é sempre um bom exercício. Hoje em dia temos material por todos os lados para ser parte desta transformação.
Um conselho que posso dar é, por exemplo, em temas de IA, é necessária a capacitação em temas éticos das ciências sociais e de direitos humanos. Por isso, na Universidade Pontifícia de Salamanca lançamos o mestrado em Governança Ética da Inteligência Artificial. Neste mestrado, capacitamos profissionais das mais diversas disciplinas (médicos, engenheiros, programadores, advogados, sociólogos, linguistas, etc.) em temas de inteligência artificial e governança ética da inteligência artificial.
Além disso, deve haver mais diversidade nas equipes que desenvolvem tecnologia. Há uma porcentagem muito baixa de mulheres na inteligência artificial e, se falarmos de outras diversidades, diria que é quase nula. Precisamos que os grupos que desenvolvem tecnologia, as equipes de desenvolvedores e programadores, tenham diversidade e conhecimento em questões de governança ética da inteligência artificial.
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