Desde 1 de agosto de 2025, a McDermott Will & Emery e a Schulte Roth & Zabel uniram forças para dar origem à McDermott Will & Schulte, uma sociedade com 1.750 advogados e mais de 2.800 milhões de dólares em receitas, que entra diretamente no Top 20 do mercado jurídico norte-americano. Trata-se de uma das fusões mais relevantes do ano, não apenas pelo volume, mas pela visão estratégica: ambas as sociedades reforçam a sua presença em praças-chave como Nova Iorque e Londres, somam práticas altamente complementares (hedge funds, fiscalidade, M&A, private equity) e dão um passo em frente num mercado onde a dimensão deixou de ser uma opção para se tornar uma exigência.
As fusões deixaram de ser manobras defensivas para se tornarem movimentos de ambição. A consolidação é a nova linguagem da liderança no setor jurídico. Em 2024 e no que vai de 2025, assistimos a uma vaga de integrações que não responde a uma moda, mas sim a uma mudança de paradigma. As sociedades que aspiram a manter-se na primeira linha estão a compreender que crescer em escala já não é uma vantagem, mas uma necessidade estrutural.
O último relatório da Fairfax Associates é claro: só no primeiro trimestre de 2025 realizaram-se 22 fusões — um aumento de 5 % face ao ano anterior —, incluindo combinações entre sociedades com mais de 100 advogados. Não se trata apenas de somar advogados ou escritórios, mas de ganhar músculo para competir num mercado cada vez mais sofisticado, fragmentado e competitivo, onde a tecnologia, o capital privado e os clientes globais estão a redefinir as regras do jogo.
A operação que mais manchetes gerou foi, sem dúvida, a criação da A&O Shearman, que uniu a Allen & Overy à Shearman & Sterling, formando uma sociedade com 4.000 advogados, 48 escritórios e mais de 3.400 milhões de dólares em faturação. Logo a seguir surge o caso da McDermott Will & Schulte que, sem criar novas geografias, alcançou uma combinação cirúrgica e eficaz: mais densidade em mercados premium, maior peso em hedge funds, private equity e regulação financeira, e uma identidade clara.
Em paralelo, consolidam-se outras integrações de grande envergadura, como a da Herbert Smith Freehills com a Kramer Levin e a da Troutman Pepper com a Locke Lord. Todas seguem o mesmo padrão: antecipar-se, crescer e reposicionar-se.
Um dos rumores que mais eco gerou nas últimas semanas foi a possível aproximação entre a Ceca Magán e a Ramón y Cajal Abogados. Segundo publicou El Español, ambas as sociedades teriam iniciado conversas exploratórias para uma eventual fusão. O encaixe fazia sentido: dois escritórios de dimensão média, com práticas complementares e ambição de consolidar a sua posição num mercado cada vez mais competitivo.
A Ceca Magán, por exemplo, cresceu 24 % em 2024, alcançando 24,9 milhões de euros em faturação. Da Ramón y Cajal ainda não foram divulgados dados do último exercício, mas o seu volume de negócios tem-se situado historicamente em torno dos 30 milhões de euros anuais. Contudo, fontes próximas do processo apontam que a operação não avançará, pelo menos por agora. Ainda assim, este tipo de movimentos — mesmo quando não se concretizam — enviam um sinal claro: a reflexão estratégica já está em cima da mesa em muitos conselhos de sócios.
A transformação do setor jurídico também é impulsionada de fora para dentro. O capital privado irrompeu com força nas estruturas jurídicas, sobretudo no Reino Unido e nos Estados Unidos, onde já são permitidos modelos de propriedade alternativos. Sociedades como a Aprio e a Radix Law começaram a operar como Alternative Business Structures (ABS), uma tendência que provavelmente ganhará terreno.
O segundo semestre de 2025 aponta para uma moderação tática: muitas sociedades preferem concluir operações com efeito a partir de 1 de janeiro. Mas isso não significa imobilismo. O que veremos será uma consolidação mais seletiva, mais ponderada, mas igualmente ambiciosa. As sociedades que fizeram os trabalhos de casa estarão em melhor posição. As que não o fizeram, poderão ficar fora de jogo.
Porque o mercado jurídico já não se mede em metros quadrados de escritório, mas sim em capacidade de adaptação, escala, proposta de valor e visão de negócio. As sociedades que compreendem que o futuro não espera estão a posicionar-se. As restantes, simplesmente, ficarão a assistir enquanto outras se integram, escalam e capturam o mercado.
Sócio Diretor Global
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