Nas últimas semanas, notícias vindas dos Estados Unidos chamaram a atenção do setor jurídico internacional. Certos escritórios de advocacia estão pagando bônus superiores a US$ 300.000 a seus associados. Esse valor, impressionante por si só, gerou reações previsíveis na Europa e na América Latina, que variam da incredulidade à conclusão imediata de que se trata de uma anomalia específica do mercado americano.
No entanto, focar apenas nos números nos números é um erro analítico. O debate relevante não é sobre salários, mas sim sobre a estrutura organizacional. O que esses números revelam não é uma remuneração extravagante, mas sim a existência de modelos organizacionais radicalmente diferentes, com consequências diretas na forma como o valor é gerado, como as organizações são governadas e como os talentos-chave são gerenciados.
A abordagem mais comum é interpretar esses bônus como uma manifestação extrema da guerra por talentos. Segundo essa visão, as empresas são obrigadas a pagar quantias extraordinárias para evitar a perda de profissionais qualificados. Essa explicação é conveniente, mas incompleta.
As empresas que conseguem manter níveis de remuneração não o fazem como uma resposta defensiva a um mercado em crise, mas sim como resultado de decisões estratégicas tomadas antecipadamente. Essas decisões incluem uma especialização clara, preços alinhados ao valor real do serviço, estruturas de alavancagem bem elaboradas e uma compreensão precisa de quem realmente contribui para o crescimento do negócio.
Nesse contexto, o dinheiro não é o ponto de partida. É o resultado.
Em grande parte do mercado europeu, o debate sobre remuneração costuma ser tratado de forma inversa é frequentemente abordado de forma inversa. As discussões concentram-se na melhoria dos salários ou na introdução de incentivos adicionais sem antes examinar os fundamentos do modelo econômico. O resultado é previsível: aumento de custos que não é acompanhado por melhorias equivalentes na produtividade, na rentabilidade ou na posição de mercado.
Nesses contextos, a incapacidade de pagar mais geralmente não se deve à falta de vontade, mas sim a margens estruturalmente limitadas. Margens que, por sua vez, são consequência de práticas profundamente enraizadas: tarifas mal defendidas, serviços excessivamente comoditizados, estruturas internas rígidas e uma resistência persistente à introdução de métricas de desempenho claras.
Portanto, quando uma empresa alega que não pode pagar melhor aos seus talentos, o salário costuma ser o sintoma visível de um problema mais profundo.
Existe uma diferença conceitual fundamental entre as empresas que pagam os melhores salários e aquelas que aspiram a isso. As primeiras não utilizam a remuneração como uma ferramenta indiscriminada de retenção, mas sim como um mecanismo de filtragem. Elas definem com precisão os perfis que desejam desenvolver, o nível de exigência que estão dispostas a aceitar e as expectativas que acompanham a progressão na carreira.
Essa abordagem introduz uma lógica seletiva que nem sempre é confortável. Nem todos os profissionais se encaixam em um modelo que vincula explicitamente responsabilidade, geração de negócios e remuneração. É justamente por isso que o sistema funciona. Ele estabelece regras claras e reduz ambiguidades internas.
Em contrapartida, muitas empresas continuam a operar sob modelos em que a progressão é difusa e as expectativas permanecem implícitas, gerando frustração tanto para aqueles que aspiram ao crescimento quanto para aqueles que governam a organização.
Um dos elementos mais cruciais neste debate é a definição, ou a falta dela, de uma trajetória de carreira coerente. Em muitas organizações, a ascensão profissional continua sendo um conceito ambíguo, associado mais à segurança no emprego do que à geração de valor.
Quando não há uma distinção clara entre excelência técnica e liderança econômica, talentos ambiciosos acabam buscando outros ambientes onde essa diferença seja reconhecida. Não se trata apenas de dinheiro, mas também de visibilidade, planos de carreira e consistência entre esforço e recompensa.
As empresas que hoje nos surpreendem com seus níveis de remuneração resolveram essa questão mais cedo. Elas estabeleceram planos de carreira claros, com metas definidas e responsabilidades explícitas, e alinharam esses planos ao seu modelo de negócios.
Esse fenômeno não pode ser analisado apenas da perspectiva dos sócios. Em última análise, ele desafia diretamente tanto os sócios quanto os órgãos de administração das sociedades.
Quando uma organização não remunera adequadamente aqueles que mais contribuem para o seu crescimento, a causa raramente está no mercado. Geralmente, reside em decisões internas relacionadas à distribuição de lucros, à tomada de riscos e à disposição para conduzir conversas desconfortáveis sobre desempenho com os colegas.
Nesse sentido, a remuneração não é uma política de recursos humanos, mas uma manifestação direta do modelo de governança corporativa.
As empresas mais bem-sucedidas compartilham uma característica comum: elas identificam proativamente profissionais capazes de gerar negócios, construir relacionamentos duradouros com os clientes e sustentar o crescimento futuro. Esses indivíduos não são gerenciados de forma aleatória, nem sua retenção se baseia em lealdade implícita.
Investe-se no desenvolvimento deles, dão-lhes visibilidade e protegem-nos dentro da estrutura organizacional. Não por altruísmo, mas por razões econômicas. A alternativa é bem conhecida: perda de talentos-chave, estagnação do negócio ou transferência de valor para concorrentes mais ágeis.
Os bônus de US$ 300.000 não devem ser interpretados como uma aspiração ou uma ameaça a outros mercados. São simplesmente um indicador. Apontam para a existência de empresas que conseguiram alinhar com sucesso estratégia, estrutura e talento.
A questão relevante não é se esses números são replicáveis em outros contextos, mas sim se as empresas estão dispostas a rever os fundamentos de seu modelo para torná-lo sustentável. Porque, em última análise, o debate não gira em torno de salários extraordinários, mas sem que tipo de organizações querem construir e qual o preço que estão dispostas a pagar, em termos de mudança interna, para alcançar esse objetivo.
É aí que este tema deixa de ser uma curiosidade importada e se torna uma questão estratégica de alta prioridade para o setor jurídico.
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